Comecei pelas roupas, nem foi tão dolorido, mas enfim chegaram as caixas ... aah as caixas. Por quantas arrumações o meu quarto passou e o conteúdo das caixas continuou intacto? Alguns papéis, embalagens, embrulhos, recortes, muita coisa dentro da primeira caixa, a roxa, nem fazia sentido pra mim, não lembrava quem me deu, de onde peguei, o que veio dentro, joguei sem sentir culpa. Algumas cartas de amigos, alguns bilhetes do colégio com algum comentário maldoso sobre alguém, enquanto lia, quase pude ouvir de novo o barulho da sala de aula, imaginei todos ao meu redor, percebi que estava sorrindo, não pude jogar fora, guardei de volta na caixa. Um cartaozinho tímido, uma cartinha escrita por duas amigas, que nem são mais minhas amigas,
Tentei me esquivar de todos os jeitos possíveis da caixa laranja, ela até tentou me ignorar, mas eu fiz questão de notar a poeira na tampa, limpei, não resisti, abri: então estava eu, cara a cara com o abismo, derrubei as coisas no chão, pedrinhas, lápis pequenos, canetas estouradas, e dessa vez não ficou no quase, eu pude ouvir em alto e bom som "toma, eu nunca te dei nada", seguido de vários risos, senti, juro que até senti um abraço ... Como assim "nunca deu nada" no meu tempo, tudo que demos um ao outro era chamado de vida, hoje que já passou, se tornou lembrança, mas nada? Não meu bem, nem outro mundo isso seria nada ... Embalagens de presentes, fotos, cartas. Quando vi a foto eu pensei "nossa, eu tava um bagaço", não senti nada, apenas examinei meu rosto, meu corpo, meu cabelo, como se houvesse mais ninguém naquela foto, o pacote de cartas passou pelas minhas mãos como se fosse uma obrigação, eu tinha que pegar ele pra colocar de volta na caixa, mas de forma alguma eu iria abrir.
Juntei esses bagulhos e enfiei de volta na caixa, não sei porque abri a bendita caixa, não tive coragem de me desfazer de nada. [É Camila, você não se dá sossêgo hein?]
Antes de fechar a caixa dei uma última olhada, eu me encarei na foto, o abismo me encarou, eu tirei os bagulhos, deixei apenas as cartas e uma foto, pisquei, dei um sorrisinho de canto de boca pra o abismo e fechei a caixa.
É vida, eu sou danada que só vendo .
" O tempo passou, eu continuei acordando e indo dormir todos os dias querendo ser mais feliz para ele, mais bonita para ele, mais mulher para ele. Até que algo sensacional aconteceu. Um belo dia eu acordei tão bonita, tão feliz, tão realizada, tão mulher que eu acabei me tornando mulher demais para ele. Ele quem mesmo? "
- Tati Bernardi -