Páginas

1 de julho de 2010

 Ela não costumava deixar as coisas pra trás,mas dessa vez ela havia conseguido,e só agora ela se deu conta,só agora percebeu que há muito sentia saudade,mas não sentia o que sentia.Percebeu que há muito já não sentia de fato as coisas que sentia,sentia apenas,que faltava algo.
 E de tanto pensar em sentir,não conseguia entender o que isso significava,se a saudade era só a ausência,como se sente falta de um objeto antigo que quebra e deixa aquele espaço vazio no móvel em que costumava ficar.Talvez a saudade fosse de algo que sentiu,ou algum sentimento que ainda existia,mas não tinha pra quem,ou pra que existir.Como se sentimentos precisassem disso para existir.Disso ela sabia,ela só precisava de uma desculpa,pra justificar a saudade pela ausência do objeto,porque o sentimento,ela sabia que existia,só não estava lembrada.
 E veio aquela vontade incontrolável de ligar,mas ela não sabia o que falar,tudo já tinha sido dito e repetido tantas vezes,e logo agora que ela já havia domesticado o coração e ele já estava adestrado a conviver com a  falta,vem o instinto e pede pra ouvir aquela voz outra vez.Aquela voz que lembrava a barba mal feita roçando na bochecha na hora do abraço,aquela voz que lembrava os conselhos mais doces e duros que ela ouviu na vida.Ela nunca os seguiu,mas os guardou,sabe que um dia podem servir pra alguém,alguém que não seja ela,ela não quer nada que tenha sido ou vindo dele,nem mesmo a  lembrança...
 Outra vez ela trata de esquecer.Ele deve estar comendo bem,dormindo,tomando cuidado,pelo menos,é isso que ela espera que ele esteja fazendo.Já que lhe sobrava tão pouco tempo pra ela,que agora ele tenha tempo pra ele,já que era isso e só isso que importava pra ele,e pra ela,um dia...
 E já que o lance é cada um cuidar de si,ela cuidou de guardar todas as lembranças no esquecimento,quem sabe noutro dia de chuva,ela volte a lembrar,quem sabe ...



"E a noite eu ainda te espero, mesmo quando sei que você não virá, só para ter saudade."
(Caio Fernando Abreu)